POLÍTICAS
PÚBLICAS DE C&T, ICT E DE PÓS-GRADUAÇÃO E
O SURGIMENTO DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO NO BRASIL
Lena Vania Ribeiro Pinheiro,
IBICT – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e
Tecnologia
Doutora em
Comunicação e Cultura , UFRJ
José Mauro Matheus Loureiro,
UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Doutor em
Ciência da Informação, IBICT-UFRJ
Institucionalização da Ciência e Tecnologia no
Brasil: primeiras faculdades e universidades, academias de Letras e de
Ciências, sociedades científicas e órgãos de fomento. Um sopro de modernidade:
a Semana de Arte Moderna. As políticas
da UNESCO para a América Latina e a criação do IBBD. As discussões iniciais e
os eventos nacionais pioneiros de Ciência da Informação. O CDC- Curso de Especialização
em Documentação e Informação do IBBD como embrião do Mestrado pioneiro em
Ciência da Informação, IBICT-UFRJ. Programas nacionais de desenvolvimento. A
institucionalização acadêmica e científica da Ciência da Informação no Brasil.
1. INTRODUÇÃO
O nascimento de um campo do conhecimento, sua
evolução e transformações não são episódios isolados e estão profundamente
imbricados não somente com fatos mais diretos de Ciência e Tecnologia, mas com
todo um quadro político, econômico, educacional e cultural, e mesmo ao panorama
mundial. Assim é que a Ciência da Informação no Brasil, cujo surgimento, ao
mesmo tempo em que se distancia, se aproxima do nascimento da área no exterior,
mais precisamente nos EUA, ou do seu alvorecer, na Europa de Otlet, é fortemente
determinada por circunstâncias históricas do Brasil daquele tempo, isto é, da
década de 60, por suas vez decorrente de períodos anteriores, com seus marcos e
marcas.
Convém lembrar que, nos Estados Unidos, país no qual
a Ciência da Informação emergiu cientificamente, em formulação conceitual, nas
reuniões de 1961/62, no Georgia Institute of Technology, este fato ocorreu
muito em decorrência dos avanços e da geração de conhecimentos de Ciência &
Tecnologia e Pesquisa & Desenvolvimento, relacionados aos esforços da 2ª.
Guerra Mundial e por seu caráter estratégico, além das novas tecnologias. Não
por acaso, Pinheiro (1977) declara, na sua tese de doutorado sobre domínio
epistemológico e campo interdisciplinar da área: “a Ciência da Informação foi
gestada sob o signo da guerra...”, portanto,
podemos reafirmar, é filha da guerra.
E no Brasil? Como a Ciência da Informação foi
concebida e ganhou espaço no território da ciência nacional e nas universidades
brasileiras?
No exterior, a Ciência da Informação vinha sendo
semeada desde o final do século 19, pelas idéias de Otlet, quando pensou a
Documentação, termo que substituiria a Bibliografia, considerado por ele e La
Fontaine restrito a livros, e assunto discutido na X Conferência Internacional de Bibliografia, de 1931 (Lasso de La
Vega apud Pinheiro, 2002).
Os termos documentação e documentos podem ser
considerados remotos antecessores epistemológicos de Ciência da Informação, uma
vez que assim são pensados por autores da área, principalmente dois dos estudiosos
de sua história que se dedicaram ao tema no seu importante
artigo de revisão para o ARIST, em 1977 (Shera e Cleveland apud Pinheiro,
1997).
Posteriormente houve reuniões sobre informação
científica: em 1948, a Conferência de Informação Científica, da Royal
Society, em 1955, a Conferência da IUPAC- International Union on Pure and
Applied Chemistry, também em Londres e,
em 1958, a Conferência Internacional de informação Científica, em Washington (
Foskett, 1980).
Como ocorre, no Brasil, essa fase germinadora da
Ciência da Informação, e quais são os seus eventos anunciadores?
Se na Europa Paul Otlet foi a figura central da
Documentação, embrião do que viria a ser a Ciência da Informação e, em 1895
fundava o Instituto Internacional de Bibliografia, o Brasil libertava-se do colonialismo e do domínio
português e iniciava-se na República,
proclamada em 1889, tinha como patrimônio documental a Biblioteca Nacional e
acervos originados dos jesuítas e localizados nas primeiras universidades e
institutos de ciência e pesquisa.
O antigo IBBD - Instituto Brasileiro de Bibliografia
e Documentação, fundado em 1954, a
partir de 1976 IBICT - Instituto
Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia desempenhou um papel central
nessa história, pois foi a instituição onde
surgem os dois sinais do
nascimento da área, o Mestrado em Ciência da Informação e a revista Ciência da
Informação, no início da década de 70, sem contar as atividades do próprio
Instituto, direcionadas à informação científica e, portanto, relacionadas ao que se entende por um
dos objetos de estudo da Ciência da
Informação.
Muitos anos depois é que cursos e programas de
pós-graduação em Biblioteconomia e
Documentação mudam, no início da década de 90,
seu nome para Ciência da Informação, conforme Pinheiro (2000).
Este trabalho é originado da pesquisa História da
Ciência da Informação no Brasil: historiografia de uma área do conhecimento
contemporânea no cenário nacional, projeto integrado de pesquisa financiado
pelo CNPq[1].
Corresponde apenas a um dos aspectos do
objetivo geral, ou seja, analisar a área no Brasil, desde a sua origem e
introdução no País, ou melhor, mapear o cenário político, social e
cultural e circunstâncias que
propiciaram a sua emergência em território nacional, portanto, sem ainda traçar um quadro atual da área.
2. PRIMEIROS PASSOS DA CIÊNCIA E
CIENTISTAS NO BRASIL E QUESTÖES DE POLÍTICA CIENTÍFICA
No prefácio de seu livro “Um espaço para a Ciência: a
formação da comunidade científica no Brasil”,
Schwartzman (2001. p.VIII) sintetiza
e situa sociologicamente a Ciência no Brasil e aborda as duas correntes de pensamento que
perpassaram a fase inicial de sua história:
- a primeira, de Amoroso Costa, matemático defensor
da ciência pura, influenciado por Weber, “que
procurava distinguir com clareza a ciência da política”, de Merton, que
estudou “... os sistemas de valores que deveriam acompanhar a cultura da ciência” (década de 40) e
de Joseph Ben-David, cuja pesquisa se
voltava ao papel da ciência e dos cientistas na sociedade moderna, sua evolução no tempo e transformações; e
- a segunda, na qual predominavam as idéias de Comte,
de Bernal e de F. Juliot-Curie, os dois últimos influenciados pelo marxismo.
Schwartzman (2001, p.VIII) esclarece que ambas as
correntes “compartiam a idéia de que as
ciências empíricas eram um componente central das sociedades modernas, e que
era importante desenvolvê-las ao máximo...”, declara-se identificado com as
preocupações da primeira corrente, na qual ciência e comunidade científica têm
seu lugar próprio, valores e cultura e “... defendendo a comunidade cientifica
contra o uso instrumental da tecnologia...”, enquanto os segundos, sobretudo
cientistas naturais, tecnólogos e engenheiros,
relacionavam ciência à
economia, à política e ao poder militar.
Na verdade os dois projetos modernistas seguiriam,
segundo o autor, o primeiro uma linha democrática e liberal e, o segundo, a
autoritária.
A Ciência e seu próprio estudo pela Sociologia da
Ciência, a Filosofia da Ciência e a Epistemologia evoluíram muito. Para Freund
(1977), as Ciências Humanas, na construção de seu estatuto, desempenham
importante papel, principalmente a partir do século 19, contribuindo para uma
nova visão de métodos científicos.
Com a nova Sociologia do Conhecimento, Schwartzman
(2000) considera que surgiram “visões extremas e radicais..”, mas o importante foi colocar a nu que “... a prática da ciência é diferente de sua ideologia e justificação,
e que, por isso, não é possível continuar a defender, de forma ingênua e
irrefletida, a superioridade do conhecimento científico, e as coisas que
propõem os cientistas e tecnólogos, sobre todas as demais” . Além de ter abalado “...profundamente a
crença nas virtudes absolutas da ciência e da técnica...”
Em 1977, o epistemólogo Hilton Japiassu, em
contundente artigo publicado na revista Ciência da Informação, sob o título de
“As máscaras da ciência”, aborda
os seus “anteparos ideológicos” e critica
a pretensa neutralidade da ciência e
dois de seus mitos: de “..
ciência-que-conduz-necessariamente-ao-progresso” e o segundo, de
“ciência-pura-e-imaculada”. Japiassu aponta “o vínculo indissolúvel entre
ciência e poder” e mostra as conseqüências do domínio da máquina e o quanto ela
está “a serviço de uma função, não de um projeto humano”.
Quanto aos modelos de política científica, Pinheiro
(2000) cita Sant'Anna (1978), no seu
livro sobre Ciência e sociedade
no Brasil, no qual reconhecia, até a
década de 70, duas situações de extremos:
“... de dependência absoluta da
Ciência em relação ao Estado, não apenas em termos de subsídios para apoio à
pesquisa e ao ensino científico como, principalmente, pelo estabelecimento de
metas para as atividades científicas. No outro extremo coloca-se uma relativa
dependência que se expressa pelo apoio financeiro mas que não implica em interferências políticas na formulação de
objetivos científicos”. Sobre dificuldades e obstáculos do desenvolvimento da ciência brasileira
Sant’Anna (1978) ressaltava “inconsistências na política científica governamental
e a ausência de projetos sociais
envolvendo a colaboração do
setor científico e tecnológico".
Os principais marcos da
política científica brasileira são listados por Marlene Oliveira (1998), na sua
tese de doutorado sobre o financiamento de pesquisas pelo CNPq à área de
Ciência da Informação:
-
em 1951, a criação do CNPq e da CAPES;
-
o Programa Estratégico de Desenvolvimento – PED,
para 1964-1966;
-
em 1969, a implantação do FNDCT- Fundo Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico, para apoio financeiro a programas e projetos de desenvolvimento
científico e tecnológico;
-
nos anos 70, o SNDCT
- Sistema Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, "para
integrar as atividades relativas à pesquisa científica e tecnológica", os
PBDCT's, Planos Básicos de
Desenvolvimento Científico e Tenológico; e
-
na década de 80, a
Lei de Informática e a criação do Ministério de Ciência e Tecnologia
Ainda sobre política da
C&T, no Brasil, no prefácio do livro de Vânia Sant’Anna, Henrique Rattner
(1978) pergunta:
"Que tipo ou modelo de
política científico - tecnológica deve ser adotada nos países pobres, a fim de
acelerar seu desenvolvimento? Uma resposta significativa só pode ser dada em
função dos valores e objetivos prioritários, definidos mediante processos
democráticos, das respectivas sociedades. A maior dificuldade nessa decisão
reside, não nos aspectos e nas complexidades técnicos do assunto, mas da
natureza conflitiva por interesses e aspirações de diversos grupos e camadas,
contraditórias e freqüentemente inconciliáveis".
As possíveis respostas podem estar contidas num
projeto coordenado por Schwartzman (2000), realizado em 1993-94, com o objetivo
de traçar uma política científica, considerando o surgimento de um cenário
diferente, pelo “...novo ‘modo’ de produção científica, muito mais pragmático,
interdisciplinar, ad hoc e contaminado por interesses comerciais e empresariais
do que antes” (Gibbons et al apud
Schwartzman, 2000). No entanto, o Brasil ainda seguia o “modelo Geisel”, dos
anos 70 e já decadente na década de 80.
Os resultados do Projeto não foram aplicados, de
forma “mais explícita” pelos órgãos financiadores, MCT e Banco Mundial, segundo
o coordenador, mas foi gerada uma série de análises e estudos. Alguns
importantes resultados, embora longos, são aqui reproduzidos, exatamente
por sua relevância:
“O cenário internacional da ciência e tecnologia
mudou dramaticamente desde que o Brasil começou sua caminhada para o
desenvolvimento de C&T nos anos 60”. As principais características deste
novo contexto internacional podem ser descritas como se segue:
-
A ciência e tecnologia estão muito mais próximas da
indústria e dos mercados do que antes. As indústrias precisam não só de
processos e produtos, mas também das qualificações necessárias para acompanhar
as novas concepções e práticas de gestão, e para isso dependem de conhecimentos
especializado que não são e nem podem mais ser gerados internamente, em suas
atividades cotidianas. A conseqüência tem sido o aumento dos investimentos em P&D,
a instalação de laboratórios especializados e departamentos de pesquisa e a
busca de novas formas de relacionamento com as universidades. Há uma
preocupação renovada com questões de propriedade intelectual, que acompanham
uma grande expansão de uma verdadeira indústria do conhecimento, do comércio,
de marcas e patentes, da assistência técnica e das consultorias internacionais.
-
O ritmo da inovação tecnológica e da competição do mercado
se acelerou, exigindo das empresas capacidade permanente de mudar sua organização
interna, absorver novas tecnologias e processos e de gerar novos produtos. Isso
tem provocado mudanças significativas na composição da força de trabalho
industrial, uma maior ênfase em trabalhadores altamente qualificados em todos
os níveis e uma drástica redução de pessoal administrativo e não qualificado.
As conseqüências desse novo ritmo de progresso técnico e da competição no
mercado incluem também a crescente internacionalização das indústrias e
mercados e redefinição das linhas de produção, com especialização de alguns segmentos da cadeia produtiva ou
em alguns nichos do mercado. Novas associações e fusões muito frequentemente
entre empresas de diferentes países, são também estimuladas pelo alto custo
financeiro da P&D e pelo encurtamento do ciclo de vida dos novos produtos.
-
A ciência está se tornando mais global. A velocidade e o
baixo custo dos fluxos internacionais de informação colocam pesquisadores e
centros de pesquisa em contado direto. A propagação de produtos e processos
tecnológicos por empresas internacionais dissemina padrões similares de
consumo, de organização e de trabalho. É muito mais fácil agora o acesso à
comunidade científica internacional do que no passado. A mobilidade
internacional de pesquisadores de talento também se tornou mais simples. Mas,
ao mesmo tempo, a participação efetiva na comunidade internacional depende de
uma qualificação adequada, na medida em que requer a utilização de instrumentos
científicos padronizados, linguagem e padrões de comunicação adequados, que, em
sua ausência, geram novas desigualdades e formas de concentração de recursos e
qualificações” (Schwartzman, 2000, p. XV -XVII).
Chamamos a atenção ao trecho final quando, ao ser
pensada a globalização, aspectos relativos à informação e à comunicação
científica internacional são ressaltados, bem como a necessária
infra-estrutura, para evitar os problemas conseqüentes apontados.
2.1 O pioneirismo no ensino e
pesquisa: faculdades, universidades e academias de ciência
As primeiras idéias sobre uma organização acadêmica
no Brasil, no final do século 18, vêm de José Bonifácio de Andrada e Silva, que
fez seus estudos universitários em diversos países da Europa e foi inspirado no
modelo de Pombal mas, segundo Schwartzman (2001, p.56-58), “esse projeto nunca
se materializou”, embora ainda nesse século tenha surgido, oficialmente, em
1797, por decisão do Rei de Portugal, o
Jardim Botânico da cidade de Belém, criado pelo Capitão-Geral do Pará para
“aclimatação de plantas”, considerada a
primeira instituição de pesquisa brasileira.
As atividades científicas praticadas no Brasil, até a
independência do País, estiveram relacionadas às riquezas naturais,
principalmente do solo (minerais), das florestas e animais, a fauna e flora,
estudadas sobretudo por estrangeiros, além dos próprios habitantes locais e
que, no entendimento de Schwartzman (2001, p.64) “era uma ciência
descritiva...” na qual esses estrangeiros “...ampliavam o acervo de observações
sobe a história natural que estava sendo acumulado na Europa”. Nesse momento se
destaca Alexandre Rodrigues Ferreira,
“o primeiro naturalista brasileiro a estudar em Coimbra ..” e
responsável pela exploração da fauna e
flora brasileiras.
A atividade científica brasileira era até os
primórdios da República “extremamente precária, cujo início ocorreu nesse
século 19, sendo considerados os estudos mineralógicos e geológicos dos irmãos
Martim Francisco e José Bonifácio de Andrada e Silva. Segundo o mesmo autor,
começam a ser fundados institutos técnicos e a pesquisa é realizada de forma
mais sistemática, estando em
funcionamento, em 1808, os seguintes: “
a Academia de Guardas-Marinhas, que passaria depois a Academia Naval; o Colégio
Médico-Cirúrgico da Bahia e a Escola Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro; a
Biblioteca Nacional; o Jardim Botânico do Rio de Janeiro,conhecido
originalmente como o Horto Real; e a Escola Central, uma academia militar que
seria a primeira escola de engenharia do Brasil” (Schwartzman, 2001, p. 66).
Em 1874 o sistema de ensino brasileiro passou por
reformulação e foi criada a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, seguindo o
modelo francês. Merece ser destacada a Escola de Minas de Ouro preto, criada em
1875 e que, para Schwartzman (2001, p.79), “é uma exceção notável entre as
escolas profissionais fundadas depois da reforma educacional do Visconde do Rio
Branco”.
No final do século 19 já existiam inúmeras
instituições de ensino e pesquisa, no país, outras foram criadas no início do
século 20 e em 1940, segundo Fernando Azevedo (apud Schwartzman 2001, p.99) funcionavam no Brasil “10 escolas de
Engenharia, 11 escolas de medicina, 14 de Farmácia e Odontologia, 5 de
Agronomia e Veterinária – além de 20 escolas de Direito, tanto públicas quanto
particulares, todas inspecionadas pelo governo”.
Podemos observar que, de acordo com dados de Stols
(apud Schwartzman , 2001, p. 100), a Bélgica era um país cujo ensino superior seguia o modelo
francês, mas não tinha tendência elitista
e militar do ensino na França e era
voltada ao ensino prático, o que se tornou
um atrativo e facilidade para a participação de brasileiros, que
convergiram para esse país em número significativo.
É oportuno lembrar a origem belga de Paul Otlet, a
quem devemos o início da Documentação, tendo por objeto a informação científica
e tecnológica, por sua vez embrião da Ciência da Informação, aspectos
inicialmente já ressaltados. Somente num país de riqueza intelectual seria
possível o movimento da Documentação, a fundação de entidades internacionais
como o já citado Instituto Internacional de Bibliografia, hoje FID – Federação
Internacional de Documentação, entre cujos membros estavam muitos detentores de
prêmios Nobel, com a participação de alguns países, além da Bélgica, a França,
Alemanha. Holanda e Suiça, e a União das Organizações Internacionais. Otlet
atuou também no Movimento da Paz, que redundou na criação da Liga das Nações e
na Organização para a Cooperação Internacional, precursora da UNESCO. Esses
movimentos no qual Otlet se engajou, desde a 1ª Guerra Mundial, contaram também
com a participação de Henri La Fontaine, seu parceiro de trabalho e Prêmio
Nobel da Paz em 1913 (Pereira, 2000,
p.VII-XVI).
Curiosamente, em Belém do Pará viveu um discípulo de
Otlet, o botânico Paul Ledoux, também belga, professor da UFPA – Universidade
Federal do Pará, que acompanhou com interesse
e apoiou as atividades da REBAM-
Rede de Bibliotecas da Amazônia.
Não podemos dissociar o desenvolvimento científico e
tecnológico de movimentos de arte e cultura que também representam o espírito
da época ou anunciam novas formas de pensar e de mentalidade, nas suas rupturas
e criatividade. Assim é que, em editorial do numero especial da revista Ciência
da Informação, Pinheiro (1996) lembra
que “o século XVII da ‘revolução científica’, berço do iluminismo que se
expandiu plenamente no século das luzes
(XVIII) é, naturalmente, o
período de institucionalização da ciência e das artes, pelo aparecimento das
primeiras sociedades e eventos
artísticos e científicos”. A autora completa o seu pensamento apontando a
criação da Académie Royale de Peinture et de Sculpture, em 1648, e o início das
“conferences” para análise de obras de arte
e a simultaneidade do
surgimento, em 1665, dos primeiros periódicos científicos, o Journal des
Sçavants e o Philosophical Transactions
of the Royal Academy, o primeiro em Paris e o segundo em Londres, “centros
irradiadores da cultura desse tempo”
Assim, é importante abordar, ainda que sucintamente,
o principal movimento de arte e cultura brasileiras da primeira metade do século 20, a Semana de Arte Moderna de
1922.
3. UM SOPRO DE MODERNIDADE: A
SEMANA DE ARTE MODERNA
A
Semana de Arte Moderna de 1922 ocorre em
meio às profundas transformações do cenário
nacional. A hegemonia político-econômica da oligarquia agrária dominante
encontra-se fragilizada em virtude do processo de industrialização e
urbanização gerada pela crise do comércio internacional, iniciada durante a
Primeira Guerra Mundial, que impõe ao Brasil a necessidade de substituição das
importações. Nesse contexto, o sistema
oligárquico encontra-se fragilizado
face à ascensão da burguesia nacional, do desenvolvimento da classe
média urbana e da formação do proletariado.
O
universo artístico-cultural do período pré-modernista tem como linguagens
estéticas predominantes o Academismo, o Realismo, o Simbolismo, o
Parnasianismo. A influência francesa em muitas áreas da vida brasileira e a
adesão das elites burguesas ao clima da Belle
Époque marcavam profundamente as idéias e o comportamento da sociedade.
As
elites intelectuais brasileiras, influenciadas pelas novas correntes artísticas
surgidas na Europa das primeiras décadas do século XX, deflagram um movimento
estético que incorpora novos valores e linguagens às várias manifestações das
artes brasileiras. A renovação estética trazida pela Semana de Arte Moderna
possui, sem dúvida, forte influência dos movimentos da vanguarda européia como
o Dadaísmo, o Cubismo e o Surrealismo, dentre outros.
O
modernismo foi o primeiro movimento “em que um grupo de intelectuais e artistas
planejou a criação de uma arte brasileira” (Zilio,1982, p.14). Desse modo, as
perspectivas estéticas apresentadas contemplavam a inserção da artes
brasileiras nos quadros das estéticas ocidentais dominantes e a incorporação da
cultura brasileira em sua temática.
As
novas formas de expressão estética trazidas pelo ideário da Semana de Arte
Moderna representam uma ruptura nas tradições da cultura brasileira e uma
tomada de consciência frente às estruturas histórico-sociais vigentes,
representadas pela arte tradicional. Dessa maneira, ainda que organizada pelas
elites intelectuais e a alta burguesia, o movimento modernista, em sua crítica
profunda à ordem oligárquica da República Velha, incorpora anseios de
transformação de vários segmentos sociais.
Ao
inserir novas perspectivas nas linguagens estéticas, por meio da importação dos
pressupostos das vanguardas européias, o movimento modernista estaria adequando
o ambiente artístico aos procedimentos que o capitalismo moderno-industrial
vinha delineando no Brasil, principalmente em São Paulo.
O
Manifesto Pau Brasil de Oswald de
Andrade, publicado em 1924 no “Correio da Manhã”, caracteriza as transformações
ocorridas no modernismo a partir daquele ano. As questões estéticas cedem
lugar, inicialmente, às preocupações com o desenvolvimento de uma literatura de
características nacionais, que se desdobra na proposição de um projeto de
cultura nacional.
Trata-se
de elaborar um novo olhar sobre a cultura brasileira, isento das perspectivas
vinculadas às tradições oligárquicas dominantes. Desse modo, as categorias de
nacional, nacionalismo e brasilidade incorporam-se às preocupações com o mundo
da cultura. Nesse sentido, a inserção na modernidade se dá pela via do
nacional, isto é, busca-se inscrever o produto cultural no interior da nação.
A
história da cultura brasileira tem na Semana de Arte Moderna de 1922 o momento
simbólico da deflagração do modernismo no Brasil. Esse momento marcante na vida brasileira deve ser entendido a
partir das crises que prenunciam o fim da República Velha e, conseqüentemente,
a perda do monopólio do poder por parte das oligarquias agrárias. As questões
estéticas e ideológicas trazidas pelo modernismo são, ainda hoje, fonte de
permanentes interpretações e questionamentos e
devem ser também consideradas no
panorama de ICT nacional do nascimento da Ciência da Informação.
4. AS INJUNÇÕES POLÍTICAS PARA A FUNDAÇÃO DO IBBD E A
INFORMAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA, NO BRASIL, EM CINCO DÉCADAS, DE 1940 A
1989[2]
No Brasil, o antigo IBBD foi fundado, em 1954, como
órgão do então Conselho Nacional de Pesquisas - CNPq.
A própria criação do IBBD se deu mais por influência
externa, pois foi a UNESCO, em ação conjunta com a Fundação Getúlio Vargas -
FGV, que estimulou a implantação do Instituto. (Briquet de Lemos, 1986). A FGV
mantinha um expressivo acervo em Ciências Sociais e herdara, em 1947, o Serviço
de Intercâmbio de Catalogação, criado em 1942, no antigo Departamento de
Administração de Pessoal - DASP.( Barbosa, 1970).
A UNESCO vinha promovendo nos países em
desenvolvimento, a partir dos anos 50, a implantação de centros nacionais de
documentação. Assim, o IBBD foi pensado como um centro de documentação visando
ao apoio das instituições científicas, técnicas e industriais, para o
desenvolvimento do Brasil, da pesquisa científica e da educação de nível
superior. Seu papel seria, fundamentalmente, o de incentivo, apoio e
colaboração.
As principais atividades do IBBD foram,
originalmente, o Catálogo Coletivo Nacional de Publicações Seriadas, em continuação
ao trabalho de Paulo Sawaya, de São Paulo, as bibliografias especializadas
brasileiras, as buscas bibliográficas, o Cadastro de Pesquisas em Andamento, o
Serviço de Intercâmbio de Catalogação - SIC, repassado pela FGV, e a reprodução
de documentos.
Parte das ações do IBBD estavam voltadas à
capacitação de recursos humanos, através de um Curso de Especialização em
Pesquisa Bibliográfica, oferecido desde o ano seguinte à fundação do Instituto,
hoje denominado Curso de Especialização em Documentação e Informação - CDC, e
do Mestrado de Ciência da Informação, em funcionamento desde 1970 (Gomes,
1974).
A informação científica e tecnológica aparece nas
políticas públicas brasileiras na década de 70. Portanto, vai refletir o
momento histórico por que passava o Brasil, sob regime totalitário desde 1964,
daí a vinculação de C&T e, conseqüentemente, de informação, à segurança
nacional, assim como a ênfase no planejamento ( Briquet de Lemos, 1986, p.108).
Foi no 1° Plano Nacional de Desenvolvimento - PND, de
1972/74, que a informação foi introduzida, prevendo-se a implantação de um
Sistema Nacional de Informação em Ciência e Tecnologia - SNICT.
O Plano Básico de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico I (1972/74) aprofundou a idéia do SNICT e estabeleceu seu principal
objetivo: “captar, tratar e difundir, de forma sistemática e permanente,
informações atualizadas na área de Ciência e Tecnologia, assim como os vários
subsistemas que dele participariam, com suas respectivas áreas de atuação”.
No Plano Básico de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico II, 1975/79, a informação científica e tecnológica ganhou mais
espaço, incluída entre atividades de apoio ao desenvolvimento científico e
tecnológico, considerada “elemento básico de apoio para a formulação de políticas
e estratégia do governo”.
O SNICT surgiu tendo como objetivo planejar e
coordenar, em âmbito nacional, os trabalhos de informação científica e
tecnológica, no sentido de estabelecer uma rede nacional de cooperação e
intercâmbio, no campo da documentação, para assegurar o aproveitamento integral
dos conhecimentos adquiridos no País e no exterior (Miranda, 1977).
O SNICT seria constituído pelos seguintes
subsistemas:
-
de informação científica;
-
de informação tecnológica e industrial livre;
-
de informação tecnológica patenteada;
-
de informação sobre infra-estrutura e serviços; e
-
de coleta e disseminação de informação no exterior (Gomes e
Carvalho, 1974, p.271-281).
Segundo a sua estrutura, o SNICT ficaria vinculado ao
CNPq e deveria funcionar de forma descentralizada, tendo dois órgãos de apoio;
o IBBD e a Biblioteca Nacional.
Para discutir o SNICT foram realizadas muitas
reuniões. No entanto, o Sistema não chegou a ser implantado e dele restam
algumas atas de reuniões e pequeno número de artigos publicados em periódicos
da área.
Surpreendentemente, o SNICT estimulou o surgimento de
sistemas, redes e serviços de informação, alguns ainda hoje em funcionamento e
outros desativados.
O IBICT data de 1976 e substitui o IBBD, permanecendo
vinculado ao CNPq, agora Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico,
cuja sigla foi mantida. O IBICT é fruto da política da década de 70 e da
concepção do SNICT, do qual, de certa forma, absorve algumas atribuições e
características. O IBICT é, ainda, uma decorrência das profundas transformações
da sociedade moderna, da emergência de computadores, do surgimento de centros
de documentação, sistemas de informações e bases de dados, do processo
automatizado que revolucionou a tradicional atuação de organismos de
informação.
O IBICT surge na perspectiva de órgão de fomento e
coordenação, com a missão de promover a efetivação do Sistema Nacional de
Informação em Ciência e Tecnologia, integrado por sistemas setoriais de
informação, (Aguiar, 1980) tendo assumido, portanto, um novo perfil
institucional, de entidade coordenadora e eminentemente política. Em
decorrência dessa mudança, desativa alguns serviços ou repassa-os a outras
entidades e torna sua biblioteca um Centro de Informação em Ciência da
Informação- CCI, responsável pela atualização de profissionais brasileiros e da
América Latina, em geral, com intensa atividade até meados de 1985. A partir
daí, lamentavelmente restringiu suas atividades à Biblioteca do Instituto e
suspendeu uma série de serviços e produtos, anteriormente distribuídos para
mais de 2000 profissionais de informação do continente latino-americano,
sobretudo Brasil.
Do início da década de 80 até 85, o IBICT fortalece o
seu papel na política de informação científica e tecnológica priorizando, no
seu programa, o apoio à criação a implantação de sistemas de informação.
O 3° PBDCT, de 1980-85, reconhece a importância do
IBICT e a necessidade de apoiá-lo, atribuindo-lhe o papel de “órgão central com
condições institucionais e materiais para desempenhar funções de coordenação
descentralizada das atividades de informação em Ciência e Tecnologia no País” (
Briquet de Lemos,1986). Este plano, diferentemente dos anteriores, não incluía
programa, projetos e atividades, transferindo essa incumbência aos documentos
específicos denominados “ações programadas”.
São dessa fase três importantes marcos na política
brasileira de informação.
-
a Ação Programada de Informação Científica e Tecnológica;
-
o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico – PADCT, com recursos do Banco Mundial; e
-
o Plano Nacional de Bibliotecas Universitárias - PNBU.
A Ação Programada (Brasil.Seplan.CNPq, 1984) foi
elaborada em 1984. É um documento que traduz o momento histórico brasileiro, de
abertura democrática, dela tendo participado, diretamente, mais de cem
profissionais de informação das mais diversas entidades brasileiras. Eles
participaram de grupos de trabalho, analisaram o documento e contribuíram com
sugestões.
A Ação Programada partiu das seguintes questões:
-
geração de documentos primários;
-
formação e desenvolvimento de coleções;
-
automação de bibliotecas;
-
bases de dados bibliográficos;
-
difusão e uso de informação;
-
recursos humanos; e
-
assuntos internacionais.
Trata-se de um diagnóstico que
aponta diretrizes, identifica instituições e respectivas atribuições para
superar os problemas de informação mapeados.
Já o PADCT apoiou, inicialmente, as atividades do
próprio IBICT e os sistemas em áreas priorizadas pelo CNPq :
-
Biotecnologia;
-
Geociência e Tecnologia mineral;
-
Química; e
-
Instrumentação.
Quanto à informação tecnológica e industrial
receberam recursos os projetos de couro e caçados, indústria têxtil, tecnologia
de alimentos e indústria moveleira, entre outros.
Posteriormente, o PADCT ampliou o apoio à informação
tecnológico-industrial e os núcleos de normas e especificações, núcleos
regionais e núcleos setoriais, como o de Design e Metal-Mecânica. Hoje, a
presença do IBICT em atividades de informação para o setor produtivo é intensa,
especificamente para às micro, pequenas e médias empresas. Importantes projetos
destacam-se, na década de 90, como SPA, hoje Rede ANTARES, com postos de
serviços em todas as regiões brasileiras. Este Projeto foi germinado ainda na
década de 80 e agora começa a ser implantado. O seu principal objetivo é, através
de uma rede de computadores, permitir o acesso descentralizado a bases de
dados.
O Instituto está hoje engajado em ações nacionais do
porte do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade - PACTI e do Programa
de Apoio à Capacitação Tecnológica da Indústria- PACTI, além do já mencionado
PADCT.
Juntamente com o Antares, o IBICT mantém experiências
mais antigas como o Catálogo Coletivo Nacional de Publicações Seriadas - CCN,
uma das primeiras redes automatizadas do país, o Programa de Comutação Bibliográfica
- COMUT e continua produzindo bancos e bases de dados, reunidos no Semear. Este
banco é constituído por seis bases de dados, disponíveis na RNP e na Renpac, da
Embratel:
-
Biblio, contendo informações sobre as bibliotecas da rede
CCN, cerca de 700;
-
Lici, que reúne o acervo da Biblioteca do IBICT;
-
TITCCN, de títulos de publicações periódicas;
-
Ciente, de publicações sobre C&T;
-
Teses, contendo dissertações e teses defendidas no Brasil; e
-
Eventos, que indexa eventos científicos e tecnológicos,
qualidade e produtividade.
O
Instituto ainda desenvolve software como o Tecer, para a produção de tesauros
em microcomputador e Lince para recuperação de informações em bases de dados e
publica, juntamente com a revista Ciência da Informação já citada, o Calendário
de Eventos em Ciência e Tecnologia, Eventos e Cursos, o boletim Qualidade e
Produtividade e o Informativo IBICT, que divulga as suas atividades.
Entre os
programas brasileiros paralelos aos do IBICT não podemos deixar de citar o
PNBU, surgido em 1986 e que marcou, decisivamente, as atividades de bibliotecas
universitárias brasileiras.
As
principais linhas de atuação do PNBU foram (Brasil.MEC.SESU, 1986):
-
o Programa de Aquisição Planificada - PAP;
-
o BIBLIOS, para aquisição de monografias;
-
o programa de capacitação de recursos humanos; e
-
projetos de pesquisa na área de informação.
O PNBU desenvolveu intensa e produtiva atividade até
meados de 91, quando começa a ser gradativamente enfraquecido. Ao apoiar e
recomendar a adesão à rede Bibliodata/CALCO, contribuiu para a sua ampliação e
consolidação.
Hoje, o Programa pode ser dimensionado pelo
crescimento e enriquecimento dos acervos universitários e pela existência de
uma política de aquisição planificada nas universidades brasileiras; pela
melhor capacitação de bibliotecários; pela aceleração do processo automatizado
e a criação de sistemas de informação universitários e pela modernização de
serviços e produtos de informação. Além das evidências, o PNBU foi formalmente
avaliado, e os resultados desse trabalho reforçam a repercussão do PNBU no
panorama das universidades brasileiras. (...)
E, para finalizar este capítulo, as atividades do
IBICT para capacitação de recursos humanos, consolidadas pela manutenção do
Curso de Especialização em Documentação e Informação - CDC e do Mestrado em
Ciência da Informação, pioneiro na área, no Brasil e América Latina, e
ampliadas com o início do Doutorado em Ciência da Informação, as atividades de
ensino são concretizadas através de mandato acadêmico da UFRJ, vinculadas à
Escola de Comunicação - ECO.
O mestrado em Ciência da Informação nasceu da natural
evolução da experiência do curso de especialização, o CDC, implantado no antigo
IBBD, em 1955, portanto, um ano após a fundação do Instituto, sob a denominação
de Curso de Pesquisa Bibliográfica, criado por Lydia de Queiroz Sambaquy. Este
curso foi um reflexo do surgimento da Documentação e da Bibliografia e do novo
campo de trabalho aberto por essas disciplinas, para profissionais de
diferentes formações que trabalhassem com informação especializada, conforme
discutido no início deste capítulo. A cada ano o Curso era dedicado a um
determinado campo do conhecimento, sendo o primeiro de documentação nas ciências naturais. A partir
de 1964 passou a ser chamado Curso de Documentação Científica - CDC, por força
de convênio com a UFRJ. A partir de 1984 transformou-se em Curso de
Especialização em Documentação e Informação, mantendo a sigla CDC e o vínculo
acadêmico cm a UFRJ, na Escola de Comunicação - ECO ( Pinheiro e Pereira, 1987,
p.75-147).
O CDC é um raro exemplo de permanência pois continua
a ser oferecido até hoje, tendo mais de 30 anos de atuação.
O CDC foi um fértil terreno para a criação do
Mestrado em Ciência da Informação, em 1970, sedimentado por circunstâncias históricas,
políticas e institucionais que culminaram nesse acontecimento. Na década de 60,
de politização da informação e de institucionalização da área, conforme vimos
antes, estavam sendo discutidos os sistemas nacionais de informação. O IBBD
convoca equivocadamente, em 1968, um Seminário de Informática. No ano seguinte,
a PUC/RJ lança o curso de Informática e a Fundação Getúlio Vargas realiza um
Seminário sobre Documentação e Informática, em 1971, cujos trabalhos foram já
citados neste capítulo.
Sob a presidência de Célia Ribeiro Zaher e a
liderança de suas idéias inovadoras foi
criado, no então IBBD, o mestrado em Ciência da Informação e, dois anos depois,
em 1972, já com o Instituto sob a direção de Hagar Espanha Gomes, é lançada a
revista Ciência da Informação, que no ano de 1997 completou 25 anos.
Conforme aconteceu com muitos cursos de pós-graduação
brasileiros, o mestrado em Ciência da Informação teve, no início, presença
maciça de professores estrangeiros, até que se formasse o corpo docente brasileiro.
Renomados professores da área, principalmente dos Estados Unidos, reconhecidos
internacionalmente, ministraram aulas e orientaram dissertações até o ano de
1981, entre os quais: Frederick Wilfrid Lancaster (34 orientações), Tefko
Saracevic (13 orientações), LaVahn Marie Overmyer, Bert Roy Boyce e Jack Mills,
2 orientações cada, além de John Joseph Eyre, Ingetraut Dahlberg e Suman Datta.
Além da presença em seminários e conferências de renomados cientistas, entre os
quais não podemos deixar de mencionar Derek de Solla Price, da Yale University
e Simão Mathias, da USP. (Pinheiro e Loureiro, 1995)
Devemos esclarecer, nesta visão retrospectiva da
área, extraída da tese de Pinheiro (1997) como indicado em nota, que alguns
projetos e programas contidos neste trecho foram desativados, o que será objeto
de análise no decorrer da pesquisa.
4.1 Sistematização de eventos
de ICT , anunciadores da nova área e marcos do seu desenvolvimento
No tópico anterior, sobre a fundação do IBBD /IBICT e
os principais fatos de informação científica e tecnológica - ICT no Brasil, em
visão retrospectiva de cinco décadas, 1940 a 1989, foram abordados os
principais acontecimentos, no seu respectivo cenário político, de Ciência e
Tecnologia e, particularmente, de ICT.
No entanto, como o texto
reproduzido data de 1997 e corresponde apenas
a um subcapítulo de tese, cujo objetivo não era o estudo da Ciência da
Informação no Brasil, o seu foco foi, conseqüentemente, resumido, apenas para
não deixar de abordar a área no Brasil. Assim, julgamos oportuno sistematizar
estes dados em quadros, para sua melhor visualização, bem como para preencher
algumas lacunas e acrescentar complementações, aqui elaboradas, até porque o
tempo permite amadurecer e aprofundar
idéias.
A definição desses marcos foi fundamentada no
pensamento de John Ziman, na sua obra “Conhecimento público”, sobre a
emergência de novas áreas e o reconhecimento de que o seu nascimento é
anunciado e institucionalizado por novas instituições, fundadas para abrigar as
suas atividades, pela promoção de reuniões e congressos para debater suas questões e publicação de periódicos especializados, a
fim de disseminar o conhecimento gerado.
O livro “Cronologia do desenvolvimento científico e
tecnológico brasileiro, 1950-2000” é uma importante fonte para dados de Ciência
e Tecnologia, no Brasil, a partir do qual podem ser sistematizados os
específicos de ICT[3] que para
efeito deste trabalho foram demarcados por décadas, ou desmembrados. Podemos
observar, nos três quadros apresentados, quando e onde se iniciam e evoluem, ou não, as ações de ICT em nosso
País.
Quadro 1: Principais eventos relacionados à ICT, 1940-1968
Ano |
Evento |
Instituição |
Local |
1940 |
Início do Catálogo coletivo de periódicos |
USP |
São Paulo |
1942 |
Implantação do SIC- Serviço de Intercâmbio de Catalogação |
DASP |
Rio de Janeiro |
1954 |
Fundação do IBBD |
IBBD |
Rio de Janeiro |
1954 |
Início do Catálogo coletivo Nacional-CCN |
IBBD |
Rio de Janeiro |
1955 |
Publicação da 1ª. Bibliografia impressa, na área de Física |
IBBD |
Rio de Janeiro |
1955 |
Início do 1º. Curso de Pesquisas Bibliográficas |
IBBD |
Rio de Janeiro |
1967 |
Fundação da BIREME- Biblioteca Regional de Medicina |
USP |
São Paulo |
1968 |
Lançamento da 1ª. Bibliografia Brasileira por processo
automatizado, em Física |
IBBD |
Rio de Janeiro |
Verificamos que atividades cooperativas, que
caracterizam a organização de redes de bibliotecas e informação aparecem sob a
forma de catálogos coletivos e de catalogação cooperativa, como um
empreendimento para não duplicar atividades
no âmbito de ICT e recuperar informação de forma mais ágil.
A fundação do IBBD é um grande marco na área, como
repetidamente vem sendo registrado neste trabalho, com todo o seu significado
de avanço e chamando a atenção também para a criação da BIREME, o que
praticamente inaugura dos Centros de Informação especializados, embora aí ainda
adotando o nome de Biblioteca Geral de Medicina, depois denominado Centro
Latino-Americano e do Caribe de Ciências da Saúde, com amplitude regional,
conforme o nome indica.
O Curso de Especialização em Documentação e Informação, conhecido pela sigla CDC e também
mencionado anteriormente, dá início à nova visão de documentação e das
atividades de documentalistas, o que causou uma a cisão com os
bibliotecários, no exterior. Isto
porque documentalistas seriam profissionais de diferentes formações que
exerceriam atividades de informação científica, em centros de documentação ou
de Informação, ou melhor, em acervos especializados para também
comunidades de especialistas, gerando
produtos tipo bibliografias, resumos etc. portanto, num processo de disseminação, fase que substituiria a de
armazenamento e preservação em bibliotecas (Lasso de La Vega, 1969).
Além destes fatos, o lançamento de bibliografias para
comunidades científicas especializadas, e este é o caso da Física, também
pioneira na adoção de processo automatizado, isto ainda na década de 60.
Finalmente, não podemos deixar de destacar a
concentração dessas atividades no Rio de Janeiro e São Paulo e o fato de o IBBD
não ter escapado às ações de autoritarismo e arbitrariedades do golpe de 64,
pois sua primeira Diretora, Lydia de Queiroz Sambaquy, foi afastada do cargo
nessa ocasião.
Na década de 70 há maior incidência de eventos na
área, o que pode ser causado por forte tendência a ações de planejamento que
caracterizaram o Governo Federal nesse período, e a inclusão do IBICT e de ICT nos PBDCT’s, dados que
constam do quadro a seguir.
Quadro 2: Principais eventos relacionados à ICT na década de 70
Ano |
Evento |
Instituição |
Local |
1970 |
1º.Mestrado em Ciência da Informação |
IBBD,mandato da
UFRJ |
Rio de Janeiro |
1972 |
Formato CALCO |
IBBD |
Rio de Janeiro |
1972 |
Ciência da Informação (periódico) |
IBBD |
Rio de Janeiro |
1972/74 |
1º. PND- Plano Nacional de Desenvolvimento |
Presidência da República |
Brasília |
1973 |
Início do Sistema de Informação da Embrapa. |
Embrapa |
Rio de Janeiro |
1973 |
Implantação da REBAM- Rede de Bibliotecas da Amazônia |
SUDAM |
Belém |
1973 |
Criação do CPDOC- Centro de Pesquisa e Documentação de
História contemporâneas do Brasil |
FGV |
Rio de Janeiro |
1973/74 |
1º. PBDCT- Plano Básico de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico |
Presidência da República |
Brasília |
1974 |
Seminário sobre Documentação e Informática |
FGV |
Rio de Janeiro |
1974 |
Fundação do CIN- Centro de Informações Nucleares, na CNEN |
CNEN |
Rio de Janeiro |
1975 |
Implantação da
Rede de Documentação e Informação |
MINTER |
Brasília |
1975 |
Início do SEICT- Sistema de Informação em ciência e
Tecnologia |
FAPESP |
São Paulo |
1975 |
ISSN-
International Serial Standard Number |
IBBD |
Rio de Janeiro |
1975 |
Realização da 1ª Reunião Brasileira de Ciência da
Informação |
IBBD |
Rio de Janeiro |
1975/79 |
II PBDCT – Plano Básico de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico. |
Presidência da República |
Brasília |
1976 |
Mudança do nome do IBBD para IBICT |
IBICT |
Rio de Janeiro |
1976 |
Início do Banco de Teses, do MEC/SIBEC e lançamento dos
catálogos de dissertações e teses brasileiras. |
MEC |
Brasília |
1977 |
Implantação da Rede Bibliodata/CALCO |
FGV |
Rio de Janeiro |
1977 |
Início do acesso a bases de dados no exterior (Orbit,
Dialog e Questel) |
IBICT |
Rio de Janeiro |
1978 |
Fundação da BINAGRI- Biblioteca Regional de Agricultura,
depois CENAGRI |
Ministério da Agricultura e FAO |
Brasília |
1978 |
Acesso online a bases de dados estrangeiras NTIS (fitas
magnéticas) e LISA |
IBICT |
Rio de Janeiro |
1978 |
Implantação
do ISBN- International Standard Book Number |
Biblioteca
Nacional |
Rio de
Janeiro |
1979 |
Realização da 2ª. Reunião Brasileira em Ciência da
Informação |
IBICT |
Rio de Janeiro |
Alguns
comentários devem ser feitos para complementar ou explicitar os dados contidos
no quadro 2, ainda que de forma
resumida, ou para atualizar as informações.
Em
primeiro lugar, esclarecer que fazem
parte do quadro 2 os Planos Nacionais
que incluíram informação, o IBBD/IBICT ou qualquer outro aspecto da
questão, conforme descrito no tópico 4, portanto, eventos mais amplos.
Deve ser
reforçado o fato de que o Mestrado do
IBICT é o pioneiro no Brasil e na América Latina e desde o seu início,
diferente dos demais, foi designado
Mestrado em Ciência da Informação, depois de um pequeno período de discussões
iniciais e dúvidas quanto à sua
nomenclatura. Este Curso foi uma natural decorrência da experiência adquirida
no curso de Pesquisa Bibliográficas, depois de 15 anos de funcionamento,
portanto, foi uma evolução natural, além de coincidir com o período (anos 70)
de crescimento da pós-graduação no Brasil, com a implantação de muitos cursos.
Depois de mais de 40 anos de mandato e convênio com a UFRJ, a partir deste ano
está sendo oferecido por convênio com a
UFF - Universidade Federal fluminense-
Além do
mestrado do IBICT, no campo da Biblioteconomia e Documentação surgiram cinco
mestrados nessa década: o da USP -, em 1972, da UFMG, em 1976, os da PUCCAMP e
da UFPB, em 1977 e o de Brasília, na UNB, em 1978. Estes cursos modificaram a sua denominação para Çiência da
Informação nos anos 90. No final da década de 90 os mestrados instituídos são
dois: o de Ciência da Informação da UNESP, em 1998, o de Informação Estratégica
da UFBA, numa subárea da Ciência da Informação que vem se desenvolvendo muito,
ultimamente, no exterior e também no Brasil, além do mais recente, da UFSC, em
Ciência da Informação.
Não podem
ser esquecidos os Cursos de Curta Duração do IBICT, realizados nas décadas de
70 e 80 e ministrados em todas as regiões do País, divulgando conhecimentos em Ciência da Informação,
atendendo à demanda das mais diferentes instituições e atuando como fator de
multiplicação. Participavam professores não somente do Instituto, mas
profissionais que passaram pelos seus cursos de pós-graduação, numa ação voltada
para fora do IBICT, de amplitude nacional, o que demonstra a sua exogenia.
O formato
CALCO – Catalogação Legível por Computador foi desenvolvido numa dissertação de
mestrado em Ciência da Informação, do IBICT, por Alice Príncipe Barbosa, a
partir do MARC- Machine Readable Cataloguing, da Library of Congress.
O
Seminário sobre Documentação e Informática, promovido pelo Instituto de
Documentação – INDOC, da Fundação Getúlio Vargas, apesar da denominação, foi
realizado para discutir a Ciência da Informação, num momento em que a sua
nomenclatura, no Brasil, ainda estava indefinida, havia pouco entendimento das
diferenças e interdisciplinaridade com outros campos, sobretudo a Ciência da
Computação e a Biblioteconomia e por
não haver, ainda, estudos brasileiros
sobre teoria e Epistemologia dessa nova área. Participaram, na condição de
conferencistas, professores e profissionais da própria FGV, tanto de
Documentação quando de Informática, do IBBD, da Biblioteca Nacional, da IBM,
dentre outras instituições e empresas. Pelo conteúdo das discussões, este
evento será detalhadamente analisado no decorrer da pesquisa. Podemos adiantar
que, como um dos resultados apontados na apresentação da publicação do evento,
foi afirmado, por Benedicto Silva (Seminário, 1971): “...o Seminário deu ensejo
à utilização, pela primeira vez no Brasil, da expressão Informática aplicada”.
Esta é uma estimulante observação , que podemos correlacionar às “aplicações”, assim chamadas na Ciência da
Informação, importantes subáreas, por exemplo, automação de bibliotecas.
A primeira
e segunda (e última) Reunião Brasileira de Ciência da Informação, realizadas,
respectivamente, em 1975 e 1979, promovidas pelo IBBD/IBICT são documentos
significativos para o entendimento da Ciência da Informação no Brasil e sua
institucionalização, tanto que devem passar por detalhada análise, relativa,
principalmente a participantes e temática.
Além do
periódico Ciência da Informação, do IBICT, surgiram na mesma década revistas de
Biblioteconomia, no ano de 1972, a Revista de Biblioteconomia da UFMG, hoje
denominada Perspectiva de Ciência da Informação e, em 1973, a Revista de
Biblioteconomia de Brasília, editada pela ABDF e UnB. Aqui se repete o fenômeno
da alteração do nome para Ciência da
Informação, como é o caso da revista mineira.
Os eventos
da década de 80 são apresentados no
próximo quadro, de número 3.
Quadro 3. Principais eventos relacionados à ICT na década de 80
Ano |
Evento |
Instituição |
Local |
1980 |
Implantação do COMUT- Programa de Comutação Bibliográfica |
MEC, depois IBICT |
Brasília |
1980/85 |
III PBDCT |
Presidência da República |
Brasília |
1982 |
Início do INFORMAN |
MPEG* e UFPA |
Belém |
1982/83 |
Implantação do Programa de ICT |
IBICT |
Brasília |
1884 |
Lançamento da Ação Programada de ICT |
IBICT |
Brasília |
1985 |
Início dos Núcleos de Informação Tecnológica |
IBICT |
Brasília |
1986 |
Implantação do PNBU- Plano Nacional de Bibliotecas
Universitárias |
MEC/SESU |
Brasília |
1986 |
Lançamento do CCN- Catálogo Coletivo de Publicações
Seriadas, via RENPAC |
IBICT |
Brasília |
1986 |
Criação da RITLA- Rede de Informação Tecnológica Latino-
Americana |
SELA |
Brasília |
1987 |
Introdução, no Brasil, do software MicroIsis |
UNESCO |
Brasília |
1988 |
Início da Bitnet |
|
|
1989 |
Primeiras ações para a RNP- Rede Nacional de Pesquisa |
MCT |
Brasília |
1989 |
Fundação da ANCIB |
|
São Paulo |
* Museu Paraense Emílio Goeldi
A década de 80 é marcada pelo começo do COMUT, muito
importante num país de dimensões continentais, caracterizado por restrições de
verbas para aquisição de acervos, e por coleções incompletas e desatualizadas.
Este Programa se tornou um instrumento muito útil para o acesso à informação e
hoje está entre os serviços prestados pelo IBICT.
No MEC também surgiu outro Programa de grande
relevância para a área, o PNBU, com diferentes subprojetos, descritos anteriormente,
e foco também na formação de recursos humanos, com a criação do curso de
especialização oferecido em diferentes
Estados brasileiros.
Na atuação do IBICT constatamos um forte investimento do Instituto na
implantação de sistemas de informação nacionais, em áreas prioritárias,
destacados no tópico anterior, apoiados por recursos do Banco Mundial, no
PADCT-Plano Básico de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Estes sistemas
posteriormente enfrentaram dificuldades na sua continuidade, permanecendo
algumas bases de dados nacionais e
serviços prioritários, que serão estudados em detalhe na pesquisa.
Os eventos contidos no quadro 3 refletem o
investimento do Brasil em
infra-estrutura tecnológica, o que vai estimular os serviços de comunicação
e informação em rede e possibilitar, na década de 90, o lançamento desses recursos em rede
eletrônica, abrindo a perspectiva da universalização de acesso.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
(OU INICIAIS?)
Este trabalho, por se tratar de parte de
uma pesquisa muito mais abrangente, citada no seu início, mesmo sendo focado
nas políticas de C&T, P&D e ICT, no quadro de nascimento e desenvolvimento da Ciência da Informação no Brasil,
ainda depende de mais estudos e análise dos dados levantados, para que esse
cenário se torne mais nítido e completo.
Por outro lado, deve ser explicitado que na pesquisa
a Ciência da Informação é considerada um campo do conhecimento com seu próprio
estatuto cientifico, ainda que interdisciplinar, daí não englobar eventos
específicos de Biblioteconomia, Comunicação ou Ciência da Computação, embora
haja reconhecimento dos seus
fortes laços interdisciplinares.
Por este motivo, periódicos e eventos nessas áreas, quando abordados, têm a
função de ilustrar questões
terminológicas, conceituais e epistemológicas existentes, que assim se
manifestam.
Por exemplo, há outros programas e cursos de
pós-graduação interdisciplinares à Ciência da Informação, uma vez que incluem
informação, mas não fazem parte do
Comitê de Ciência da Informação, da CAPES, talvez por não a priorizarem e ser outro o seu objeto
de estudo. Entre estes está, por exemplo, o Mestrado
em Memória Social e Documento, implantado em 1988 na UNIRIO, que até integrou
esse Comitê e depois saiu. Outros surgiram muitos anos depois, na década de 90:
o Mestrado em Comunicação e Informação, criado em 1996, na Universidade Federal
do Rio Grande do Sul- UFRG; o Mestrado em Comunicação, Imagem e
Informação, da UFF - Universidade
Federal Fluminense; fundado em 1997; e o Mestrado em Comunicação, Informação e
Sociedade, implantado em 1998 na Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.
Esta mesma observação é válida para
periódicos e reuniões técnico –científicas. Os dados sobre as revistas podem
ser atualizados com a inclusão do Informare: Cadernos do Programa
de Pós – Graduação em Ciência da Informação, do IBICT, inscrito no ISSN como da
UFRJ, o que provavelmente comprometerá a sua continuidade, uma vez que o
convênio atual do IBICT é com a UFF. Além deste, o DataGrama Zero - revista de
Ciência da Informação lançada em dezembro de 1999, somente em versão eletrônica. Alguns dos periódicos da área
circulam em duas versões, eletrônica e impressa, como a Ciência da Informação,
do IBICT, disponível na Internet desde 1995, a TransInformação, da PUCCAMP, desde 1996, e Informação e
Sociedade, da UFPb, a partir de 1999.
Sobre os eventos direcionados à Ciência da
Informação, exceto as duas Reuniões Brasileiras em Ciência da Informação,
promovidas pelo IBICT e realizadas no Rio de Janeiro, em 1975 e 1979, atualmente
apenas as reuniões da ANCIB e do
CINFORM são específicas da área e vêm sendo realizadas de forma sistemática, tanto que o CINFORM deste ano é o quinto.
O Congresso
Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, existente desde 1954 , atualmente incorpora também a Ciência da
Informação no seu título, os Seminários Nacionais de Bibliotecas Universitárias
– SNBU, os Seminários de Automação de Bibliotecas, promovidos no INPE – Instituto de Pesquisas Espaciais e as
Jornadas de Biblioteconomia e Documentação, em âmbito regional (sul,nordeste e
norte) e diversos eventos não regulares têm sido realizados, alguns desativados, daí não terem sido aqui incluídos.
A repercussão da atuação do IBICT em todo o
território nacional está para ser escrita.
As Instituições que tiveram a sua criação com o apoio
do Instituto, como a BIREME e o CIN, os cursos que foram implantados sob sua
influência e participação dos seus
professores e pesquisadores, enfim, o quanto
sua presença e atuação têm sustentado e impulsionado o desenvolvimento
da ICT em território nacional.
Um bom exemplo é a criação da Biblioteca Central e do
Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Pará, por um médico,
professor e documentalista, Clodoaldo Beckman, egresso do CDC do IBICT. O curso
da UFPA congregou grandes intelectuais de Belém como o filósofo Benedito Nunes,
o emérito professor Francisco Paulo Mendes, especialista em História da Arte e
da Literatura, e o escritor Cônego Apio
Campos, entre outros, além de ter contato com a presença de professores do IBBD
como Célia Zaher, o que atesta o alto
nível do ensino ministrado nesse Curso.
Não podemos deixar de ressaltar dois fatos, um
referente às atividades de ensino de pós-graduação do IBICT, e outro ao próprio
Instituto. No primeiro caso, a amplitude continental do PPGCI, uma vez que,
desde os seus primeiros anos, a presença de alunos da América Latina foi uma de
suas características, o que certamente deve ter contribuído para o debate e
busca de soluções das questões latino-americanas de informação e da liderança
do IBICT na região.
Inversamente, após alguns dados desta pesquisa,
relativos a programas, projetos e atividades em ICT e abordados no texto
sabemos, hoje, que muitos foram desativados
nos últimos anos, gradativamente ou de forma abrupta, o que será
analisado detidamente, na pesquisa. Não se trata de desconhecer as naturais e
até necessárias transformações da área, por suas próprias características,
sobretudo das tecnologias de Informação, de rápida obsolescência, mas sim das
exigências de análise aprofundada de
algumas questões, do reconhecimento de que
muitas vezes não é caso de exclusão, e sim de atualização, de
aperfeiçoamento, e que a verdadeira experiência, com sabedoria, quase sempre é
um dado positivo. Até porque nada surge do nada nem é absolutamente original,
pois sempre há uma idéia ou um trabalho precedente, fundador do novo, a partir
do antigo, transmutado.
Em relação ao IBICT devemos refletir que o IBBD-
Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação foi fundado em 1954, dois
anos após a criação do VINITI, instituto semelhante, da Rússia e, por esta
comparação, constatamos o quanto o Brasil foi um país de vanguarda em
informação científica e tecnológica – ICT e o quanto este patrimônio não
somente institucional, mas brasileiro, deve ser zelado, por representar, hoje,
50 anos de investimentos de recursos
públicos, conhecimentos reunidos e experiência acumulada por todos os
profissionais que fizerem a sua história, por
ele passaram e aqueles que ainda
permanecem na Instituição.
A história e a historiografia da Ciência
da Informação no Brasil estão sendo traçadas...
AGUIAR, Afrânio Carvalho. Coordenação de uma rede
nacional de informação em ciência e tecnologia: um plano prioritário do IBICT.
Ciência da Informação, Brasília, v.9, n.1/2,p.83-8, 1980.
ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu.
São Paulo: Ed. Perspectiva, 1976.
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[1] Equipe participante da
pesquisa: Prof(a)s. Dr(a)s: Lena Vania R. Pinheiro, coord.,IBICT; Diana F. C.
Lima, UNIRIO; Isa M. Freire, IBICT;
José Mauro M. Loureiro, UNIRIO; Lígia
Café, IBICT; Maria Lúcia. N. M Loureiro, JBRJ; Marisa Brascher, UnB; Rubens R.
da Silva, UFBA ; Sandra L. Rebel Gomes, UFF; e Profa. Patrícia Henning, UNIRIO,
Mestre em CI; bolsista AP Maria das
Graças (Linda) Loiola e bolsistas IC
Júlia N. Moraes e Aline C. F. Carvalho.
[2] Este tópico 4 reproduz, ipsis litteris, a parte inicial de
um subcapítulo da tese de Pinheiro (1997), o
5.1, Ciência da Informação no Brasil: políticas públicas, ensino e
pesquisa, não publicado. Foi suprimida a parte final, correspondente à análise
específica do PPGCI- Programa de Pós – Graduação em Ciência da Informação, do
IBICT, na ocasião em convênio com a UFRJ.
Eventuais exclusões, por ultrapassarem o período ora analisado, são
indicados por (...) e farão parte da pesquisa posteriormente, mas os verbos foram mantidos no presente, embora
hoje alguns se refiram a programas, projetos e ações desativados. É oportuno
explicitar que também a forma de citar, que na tese adotava números remetendo à
bibliografia ao final do capítulo, aqui inclui o autor, data e página, seguindo
a forma de citar no presente trabalho.
[3] Um dos
autores do presente trabalho, Lena Vania Ribeiro Pinheiro, foi uma das
responsáveis pelo levantamento dos eventos em ICT, por solicitação de José
Rincon Ferreira, Diretor de Articulação Tecnológica da Secretaria de Tecnologia Industrial do MDIC- Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e Secretário Executivo da
Comissão Comemorativa do 50 anos do CNPq.